Opinião: Síndico é gestor temporário, não dono do condomínio


O Brasil acompanha com profunda tristeza e indignação o caso envolvendo a morte da corretora de imóveis Daiane Alves Souza, episódio que chocou o país e trouxe à tona um debate necessário sobre os limites da atuação de um síndico dentro de um condomínio

por Paulo Melo*

Antes de qualquer reflexão, é fundamental registrar solidariedade à família e amigos da vítima, reafirmando que toda violência deve ser combatida com rigor e justiça. Um crime dessa natureza jamais pode ser relativizado ou tratado como consequência de conflitos condominiais. Trata-se de uma tragédia humana que ultrapassa qualquer discussão administrativa.

Como presidente do Instituto Nacional de Condomínios e Cidades Inteligentes (INCC), entidade que dialoga com milhares de gestores e representa o pensamento de uma ampla rede do setor, é importante dizer com clareza: um caso isolado não representa os mais de 500 mil síndicos que atuam diariamente com responsabilidade, dedicação e espírito comunitário em todo o Brasil.

O síndico é um gestor eleito. E, como todo cargo eletivo, possui data de entrada e data de saída. Não se trata de um posto vitalício, tampouco de um espaço de poder pessoal. O mandato é um instrumento de serviço à coletividade.

Quando alguém assume a função de síndico, assume também um compromisso com a convivência pacífica, com o diálogo permanente e com a mediação de conflitos. A essência da sindicatura não está na autoridade, mas na capacidade de construir consenso.

É preciso lembrar que o condomínio é uma comunidade. E comunidades não prosperam sob tensão, perseguição ou personalismo. Prosperam sob cooperação, respeito e regras claras.

Infelizmente, situações em que gestores se apegam ao cargo, buscam perpetuação no poder ou tentam impor suas vontades individuais não são inéditas. Porém, tais práticas distorcem completamente o propósito da função.

O síndico não pode transformar divergências administrativas em conflitos pessoais. Não pode se envolver em ataques a moradores, perseguições ou práticas de constrangimento. Muito menos utilizar instrumentos do condomínio para alimentar disputas individuais.

A liderança condominial exige maturidade emocional. Exige autocontrole. Exige saber que, muitas vezes, recuar é uma demonstração de força — não de fraqueza.

Há momentos em que a melhor decisão de um gestor é pedir desculpas. Em outros, é pedir ajuda. E, em determinadas circunstâncias, é reconhecer que o ciclo chegou ao fim e optar pela renúncia.

Renunciar não é fracassar. É compreender que a paz coletiva vale mais do que a permanência individual.

O condomínio não é palco de disputas de poder. É um espaço de convivência onde famílias vivem, crianças crescem, idosos encontram tranquilidade e patrimônios são construídos ao longo de uma vida inteira.

Nossa missão enquanto síndicos deve ser sempre a valorização dos imóveis, a preservação da segurança, o fortalecimento do senso comunitário e a busca permanente pela pacificação.

O episódio que o país acompanha deve servir como reflexão profunda para todos que exercem ou pretendem exercer a sindicatura. Não para gerar medo, mas para reforçar valores.
  • Valores como diálogo.
  • Respeito.
  • Limites institucionais.
  • Humanidade.
Ser síndico é, acima de tudo, ser um agente de paz dentro da comunidade.

Que este triste caso nos lembre que nenhum cargo, nenhuma divergência e nenhuma disputa administrativa podem se sobrepor à vida, à dignidade e à convivência civilizada.

O Brasil precisa de síndicos construtores de pontes — nunca de muros.

E essa continuará sendo a mensagem que o INCC defenderá em todo o país.

*Paulo Melo é Professor, Jornalista, Adminsitrador e está Síndico e presidente do Instituto Nacional de Condomínios e Cidades Inteligentes - INCC.

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