Bares e restaurantes adotam estratégias para reduzir desperdício de alimentos

 

De planejamento da produção ao reaproveitamento de ingredientes, estabelecimentos buscam reduzir perdas e mostram como cozinha, gestão e comportamento do consumidor fazem parte da solução 

 

Buffet a quilo | Foto: Wolf Wagner / Agência de Notícias da Abrasel

 

O desperdício de alimentos é um desafio que começa antes mesmo de uma refeição chegar à mesa. Para bares e restaurantes, controlar a quantidade produzida, aproveitar ingredientes e orientar consumidores são algumas das estratégias utilizadas para diminuir perdas na operação. 

Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) revelam que o Brasil ocupa a 10ª posição no ranking global de desperdício, com o equivalente a 46 milhões de toneladas de alimentos descartadas por ano em toda a cadeia de produção e consumo. 

O assunto ganhou destaque com o Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdícios de Alimentos, celebrado em 29 de setembro. Criada pela ONU, a data amplia a discussão sobre as perdas de alimentos e as formas de reduzi-las. 

Na alimentação fora do lar, experiências de estabelecimentos mostram que o controle pode envolver desde a previsão do número de clientes até a transformação de ingredientes que normalmente seriam descartados. 

 

Previsão de movimento ajuda a controlar produção 

No restaurante L’amour, em Lages/SC, o planejamento começa pela estimativa de clientes. A casa funciona com buffet de segunda a sexta-feira e utiliza o histórico de frequência para definir quanto será produzido. “A gente tenta fazer um planejamento baseado nos nossos clientes fixos, que almoçam aqui. Fazemos um cálculo de 15% a mais para o dia”, explica o proprietário Andrigo Silva. 

Ainda assim, o restaurante registra uma sobra média de cinco a seis quilos de alimentos diariamente. Para controlar o que acontece depois da produção, a casa diferencia as sobras limpas, que não saíram da cozinha, dos restos que foram expostos no buffet ou tiveram contato com clientes. 

Quando o alimento permanece na cozinha e atende às condições para reaproveitamento, pode ser utilizado em outra preparação. A carne assada, por exemplo, é transformada em "escondidinho". 

Já o que foi exposto no buffet ou teve contato com os pratos precisa ser descartado conforme as normas sanitárias. Nesse caso, o restaurante encaminha os resíduos para compostagem. “O que é descartado vira compostagem e nós entregamos para uma empresa que nos fornece hortifrutis”, afirma Andrigo. 

A estratégia permite atuar em diferentes pontos da operação, reduzindo a produção excedente e dando destino aos alimentos que não podem mais ser servidos. 

 

Ingredientes ganham novas funções na cozinha 

No Versá Restaurante e Eventos, em Brasília/DF, o aproveitamento de ingredientes é incorporado ao planejamento dos pratos. O chef Uedison Cunha Alves explica que alimentos que não foram utilizados no serviço podem ser transformados em novas preparações, desde que sejam respeitadas as normas sanitárias. 

"Nosso período de almoço vai das 11h15 às 15h30. Logo em seguida, à noite, temos um buffet de comida de boteco montado no restaurante, junto com a parrilla e à la carte. Os risotos que não são aproveitados no almoço a gente aproveita para fazer arancinos, que são uns bolinhos pequenos, italianos, recheados com queijo, cogumelo e carne seca, e eles vão para a ilha de comida de boteco", revela o chef. 

O arroz que não foi exposto no buffet vira bolinho de arroz, enquanto carnes que sobram da parrilla podem ser utilizadas em paçoca de carne seca, arroz carreteiro ou arroz Maria Isabel. 

O aproveitamento também chega às partes dos ingredientes que normalmente têm menor valor culinário. Legumes retirados no pré-preparo podem ser usados em molhos, e partes de peixes podem entrar em salgados, como bolinhos e croquetes. “O que a gente vê que tem qualidade e que dá para virar outro prato, a gente utiliza”, resume o chef. 

A proposta também esteve presente no prato que levou o Versá à premiação estadual do concurso "O Quilo é Nosso", na categoria sustentabilidade. O 'Naco de Anchova Negra ao Molho Cearense' utiliza diferentes partes do peixe. "Utilizamos a parte nobre do peixe, que é o lombo, para fazer o prato. Com a carcaça, as espinhas e a cabeça, fizemos um consommé base, um fumê de peixe, e a partir dele o molho cearense", detalha o chef Uedison. 

 

Mudança também depende do consumidor 

Parte do desperdício acontece depois que a comida deixa a cozinha. Em restaurantes com buffet, a quantidade colocada no prato pelo cliente pode determinar quanto alimento será descartado ao fim da refeição. 

No Versá, Uedison percebe mudanças no comportamento dos consumidores e relaciona a redução das sobras à conscientização de quem trabalha e de quem frequenta o restaurante. “A reeducação, tanto dos profissionais quanto dos clientes que vão ao restaurante todos os dias, já trouxe uma grande mudança. Começa por não colocar no prato aquilo que você não vai consumir, porque você também vai jogar o seu dinheiro fora.” 

Além do impacto ambiental, o desperdício também representa um custo para os estabelecimentos. No L’amour, Andrigo Silva estima que as perdas correspondam a cerca de 2% dos custos do restaurante. 

O percentual envolve recursos utilizados na compra e preparação dos alimentos, além de água, energia e mão de obra. Por isso, reduzir o desperdício também pode significar melhorar a eficiência da operação. 

As experiências dos dois restaurantes mostram que não existe uma única etapa capaz de resolver o problema. A redução das perdas depende de planejamento, controle da produção, aproveitamento dos ingredientes, destinação adequada dos resíduos e participação do consumidor. 

Para bares e restaurantes, a estratégia passa menos por simplesmente produzir menos e mais por entender melhor a demanda, utilizar os alimentos de forma integral sempre que possível e evitar que recursos que poderiam permanecer na cadeia de consumo terminem no lixo. 

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